Rastreio do câncer: proteção e cuidado no tempo certo
Para perder o medo do diagnóstico de doenças como o câncer é preciso entender a importância de buscar a prevenção, para evitar que ela aconteça, e fazer o rastreio adequado, para facilitar e ampliar as possibilidades de sucesso com o tratamento precoce.
O câncer está aumentando em todo o mundo. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) projetam um crescimento acelerado nas próximas décadas, com uma em cada cinco pessoas desenvolvendo a doença ao longo da vida, e chegando a 2050 com cerca de 35 milhões de casos anualmente.
Uma das causas é o envelhecimento da população, pois grande parte dos cânceres é mais frequente com o avanço da idade. Outro motivo é a permanência de fatores de risco evitáveis, dado que chama a atenção, visto que estudos recentes mostram que de 30 a 50% de todos os cânceres que acontecem no mundo podem ser prevenidos com mudança de hábitos.
O Dr. Diogo Olive Gomes, médico de Família e Comunidade e coordenador médico das Clínicas DOC (Programa Integração Saúde) alerta para o impacto emocional de receber um diagnóstico de câncer, principalmente em estágio avançado, que poderia ter sido evitado. Daí a importância de conscientizar a população sobre o grande poder da prevenção primária, que é mais simples, barata e consegue, em grande parte, evitar a doença ao invés de tratá-la.
PREVENÇÃO PRIMÁRIA: PARA EVITAR A DOENÇA

A prevenção primária busca reduzir o risco do surgimento do câncer por meio de hábitos de vida mais saudáveis e da redução da exposição a fatores de risco evitáveis. Entre os principais fatores de risco para o câncer estão:
Tabagismo: aumenta consideravelmente o risco para diversos tipos de câncer, como pulmão, cabeça e pescoço, esôfago, bexiga, principalmente o uso de cigarros eletrônicos.
Consumo de álcool: considerado uma droga carcinogênica, o álcool está relacionado ao aumento do risco de câncer de mama, colorretal, cabeça e pescoço, tumores do aparelho digestivo e diversos outros.
Obesidade e sedentarismo: podem provocar alterações metabólicas, hormonais e inflamatórias que aumentam o risco de uma série de tipos de câncer, como os de mama, útero, endométrio e pâncreas.
Alimentação inadequada: o consumo frequente de alimentos ultraprocessados e embutidos, como salsicha, presunto, salame, além do excesso de açúcar, gordura e sal são fatores predominantes para aumentar o risco de câncer.
Exposição inadequada ao sol: é um dos principais fatores relacionados ao câncer de pele não melanoma, o tipo mais frequente no Brasil.
Estresse e ansiedade: contribuem para o adoecimento físico e mental e estão associados a impactos negativos na saúde de forma geral, incluindo o desenvolvimento do câncer.
PREVENÇÃO SECUNDÁRIA: PARA DESCOBRIR E TRATAR NO INÍCIO
A prevenção secundária consiste no rastreamento por meio de exames capazes de identificar o câncer em estágios iniciais, muitas vezes antes do aparecimento de sintomas. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores podem ser as possibilidades de tratamento e menores os riscos de complicações, sofrimento e mortalidade.
| ESTIMATIVA DE CÂNCERES MAIS INCIDENTES* NO BRASIL PARA 2026 | |||||
| HOMENS | MULHERES | ||||
| TIPO | CASOS | % | TIPO | CASOS | % |
| Próstata | 77.920 | 30,5 | Mama feminina | 78.610 | 30,0 |
| Cólon e reto | 26.270 | 10,3 | Cólon e reto | 27.540 | 10,5 |
| Traqueia, brônquio e pulmão | 18.730 | 7,3 | Colo do útero | 19.310 | 7,4 |
| Estômago | 13.830 | 5,4 | Traqueia, brônquio e pulmão | 16.650 | 6,4 |
| Cavidade oral | 12.260 | 4,8 | Glândula tireoide | 13.310 | 5,1 |
*Exceto câncer de pele não melanoma, que é o mais frequente de todos os tipos, em homens e mulheres.
Fonte: Instituto Nacional do Câncer – Inca
De acordo com o Dr. Diogo Gomes, embora evitar o câncer com a prevenção primária deva ser o foco da atenção, o rastreamento da doença também tem papel fundamental, especialmente para determinados tipos. O diagnóstico precoce pode fazer muita diferença e o uso do bom senso, tanto do médico quanto do paciente, deve prevalecer na escolha dos métodos mais adequados de rastreio e quando devem ser feitos.
GUIA DO RASTREIO DE CÂNCERES FREQUENTES
Confira as orientações do Dr. Diogo Gomes para o rastreamento de alguns dos principais tipos de câncer que acometem mulheres e homens:
| MAMA FEMININA | A incidência do câncer de mama vem crescendo, o que reforça a importância do rastreamento. A mamografia deve começar entre 40 e 50 anos, conforme a avaliação individual e o histórico familiar, e ser repetida a cada dois anos. Ela detecta alterações imperceptíveis ao toque, enquanto o autoexame pode falhar nas fases iniciais e, por isso, não substitui o exame de imagem. |
| PRÓSTATA | O câncer de próstata é mais comum em homens acima de 65 anos e costuma evoluir lentamente, embora possa ser agressivo em jovens. Sem sintomas, o rastreamento deve ser decidido em conjunto com o médico, em geral a partir dos 50 anos, ponderando benefícios e riscos, como o histórico familiar. OMS, Inca e Ministério da Saúde não recomendam o rastreamento de rotina com PSA ou toque retal em homens assintomáticos, devido ao risco de sobrediagnóstico e biópsias desnecessárias. Já sintomas urinários, como aumento da frequência, incontinência ou infecções frequentes, devem ser investigados. |
| COLORRETAL (INTESTINO) | O rastreamento do câncer colorretal é feito principalmente pela pesquisa de sangue oculto nas fezes, anualmente, com destaque para o FIT – Teste Imunoquímico Fecal, que é simples e não exige restrições alimentares, ou pela colonoscopia, geralmente a partir dos 50 anos, a cada 5 a 10 anos conforme cada caso. O exame de sangue oculto é não invasivo, mas um resultado positivo não confirma câncer, pois outras condições também causam sangramento; nesse caso, a investigação segue com colonoscopia. Sintomas persistentes, como emagrecimento, dor abdominal ou diarreia, também justificam a colonoscopia. |
| COLO DO ÚTERO | O rastreamento do câncer do colo do útero deve começar aos 25 anos para mulheres que já iniciaram a vida sexual. O Papanicolau é repetido após um ano e, a partir do segundo resultado, a cada três anos. O teste de DNA/HPV, já disponível no SUS em vários municípios mineiros para mulheres de 25 a 64 anos, pode ser feito a cada cinco anos quando o resultado é negativo. A vacinação contra o HPV antes do início da vida sexual também é uma importante forma de prevenção, conforme as recomendações do Ministério da Saúde. |
CÂNCER DE BOCA: CONSEQUÊNCIA GRAVE DE MAUS HÁBITOS
O câncer da cavidade oral é a quinta doença que mais mata no Brasil. As estimativas preveem cerca de 17 mil novos casos diagnosticados por ano, sendo mais de 12 mil em homens. Essa prevalência está relacionada, principalmente, à maior exposição masculina aos fatores de risco.
Segundo a Dra. Lina Chaves, periodontista da clínica própria do Programa Integração Saúde da Copass, em BH, 80% dos casos são identificados em estágio avançado, quando o tratamento tende a ser mais agressivo e pode comprometer significativamente a qualidade de vida. A doença costuma evoluir rapidamente e, no início, pode não causar dor. Por isso, prevenção e diagnóstico precoce são fundamentais.
Fatores de risco evitáveis
O tabaco e o álcool são os principais fatores associados ao câncer de boca, especialmente quando consumidos em conjunto. O risco é ainda maior no uso de cigarros eletrônicos e narguilé, independentemente do tipo.
Outros fatores de atenção incluem:
- Infecção pelo HPV: o vírus está diretamente relacionado a casos de câncer oral e orofaríngeo. Por isso, a vacinação de meninos e meninas na adolescência, aliada ao sexo seguro, é fundamental.
- Saúde bucal e lesões: cuidados contínuos e hábitos saudáveis ajudam na prevenção de infecções e lesões na mucosa bucal.
- Exposição solar: a radiação ultravioleta sem proteção é a principal causa do câncer nos lábios. O uso diário de protetor solar labial é indispensável, sobretudo para quem trabalha ou realiza atividades ao ar livre.
Fique atento!
A Dra. Lina ressalta que qualquer lesão na boca que não cicatrize em até 15 dias deve ser avaliada por um profissional de saúde. Feridas, manchas ou outras alterações persistentes não devem ser ignoradas, mesmo que não causem dor. Outros problemas dentários comuns, como o tártaro, também precisam ser solucionados porque podem mascarar o desenvolvimento da doença. Por isso, o acompanhamento odontológico regular não pode ser negligenciado. Na Atenção Primária à Saúde, esse cuidado garante a orientação quanto aos fatores de risco e possibilita identificar e monitorar alterações, favorecendo o diagnóstico precoce.